NO SUL DO PIAUÍ, MORADORES ENFRENTAM COLAPSO HÍDRICO ENQUANTO O ESTADO PRIVATIZOU A ÁGUA POR 35 ANOS
Sabe de algo sobre este caso? Envie sua denúncia. Sigilo absoluto.
Denunciar agoraNum estado onde 100% do território está sob seca e mais de 120 municípios decretaram emergência, comunidades rurais do sul do Piauí vivem o que nenhum indicador consegue traduzir com a mesma brutalidade que uma imagem: balde na mão, caixa d’água improvisada no chão de terra batida, e moradores reunidos numa rua de terra para gritar que a torneira secou.

O vídeo registrado pelo programa Linha Direta do Repórter mostra exatamente isso. Uma repórter ouve, microfone vermelho na mão, o relato de moradores que não têm acesso regular à água potável. As caixas d’água plásticas aparecem fincadas no barro como solução improvisada. O balde empunhado diante da câmera não é encenação. É o sistema de abastecimento real de uma comunidade no sertão piauiense em 2026.
O Piauí chegou a 2025 com a pior seca em sete anos. O Monitor de Secas da Secretaria Estadual de Meio Ambiente registrou que 115 municípios, metade do estado, atingiram o estágio de seca extrema em outubro daquele ano, com perdas generalizadas na agricultura, açudes secos e comunidades inteiras sem acesso à água potável. Em fevereiro de 2026, ainda eram 49 cidades no estágio crítico. Uruçuí, Ribeiro Gonçalves, Riacho Frio e Pavussu estão entre os municípios com emergência reconhecida e poços sendo perfurados em caráter emergencial.
Em Simões, no sul do estado, moradores relataram quase quatro meses sem chuvas. “Aqui não tem açude, nem água encanada. O inverno foi fraco e não tem água nem na torneira”, disse MARIA JOSÉ DA SILVA, moradora de comunidade afetada, em julho de 2025. A barragem Salgadinha, principal reservatório do município, operava com apenas 15% da capacidade.
É nesse contexto que o governador RAFAEL FONTELES (PT) leiloou, em outubro de 2024, os serviços de saneamento de 224 municípios piauienses para a holding AEGEA, criadora da concessionária Águas do Piauí. O contrato tem duração de 35 ANOS, válido até 2059. A AEGEA pagou R$ 1 BILHÃO pela concessão. O diretor-presidente da Águas do Piauí, GUILHERME DIAS, e o diretor executivo, RODRIGO LACERDA, assumiram a gestão de toda a água do estado com a promessa de levar abastecimento a 99% das residências até 2033 e esgoto a 90% até 2040.
A promessa ainda é promessa. Em dezembro de 2025, durante o Natal, moradores de Parnaíba e Luís Correia ficaram quase 24 horas sem água. A própria Águas do Piauí atribuiu a falha a instabilidades no fornecimento de energia elétrica. A solução apresentada pela empresa foi uma operação emergencial com 12 geradores. Num estado com 100% do território em seca declarada, a concessionária que assumiu a água de 224 cidades opera com gerador de emergência quando a luz oscila.
O TCE-PI, o Tribunal de Contas do Estado, já apontou fragilidades na gestão de contratos de PPP de infraestrutura no Piauí e determinou ações corretivas a órgãos do governo estadual. O padrão se repete: obras com dinheiro público, concessão para o setor privado, e a população pagando a conta sem ver o serviço.

O vídeo que deu origem a esta reportagem não tem autor identificado nem data precisa. Mas o que ele mostra tem endereço, tem contexto e tem responsável. Uma comunidade no sul do Piauí. Uma seca que o governo do estado classifica como emergência. E um balde que diz, sem precisar de legenda, tudo o que o poder público não quis resolver.
REPORTER MARLON BORGES
Jornalismo investigativo. Denuncias, politica, policia e operacoes no Piaui, Nordeste e Brasil.
Leia também
Denúncias
Com direito a “parabéns”, moradores de Floriano (PI) protestam contra vazamento que dura um ano no Centro da cidade
Buraco provocado pelo desperdício de água limpa na Avenida João Luis Ferreira põe em risco motoristas e pedestres;...
Denúncias
Secult-PI é alvo de três investigações do MP por suspeita de fraudes na Lei Aldir Blanc e favorecimento
Linha Fina: Apurações conduzidas pelo MPF e MPPI miram a gestão de Rodrigo Amorim; pasta também acumula condenação...