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NO SUL DO PIAUÍ, MORADORES ENFRENTAM COLAPSO HÍDRICO ENQUANTO O ESTADO PRIVATIZOU A ÁGUA POR 35 ANOS

REPORTER MARLON BORGES
por REPORTER MARLON BORGES 28 de maio de 2026 · 4 min de leitura
NO SUL DO PIAUÍ, MORADORES ENFRENTAM COLAPSO HÍDRICO ENQUANTO O ESTADO PRIVATIZOU A ÁGUA POR 35 ANOS

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Num estado onde 100% do território está sob seca e mais de 120 municípios decretaram emergência, comunidades rurais do sul do Piauí vivem o que nenhum indicador consegue traduzir com a mesma brutalidade que uma imagem: balde na mão, caixa d’água improvisada no chão de terra batida, e moradores reunidos numa rua de terra para gritar que a torneira secou.

O vídeo registrado pelo programa Linha Direta do Repórter mostra exatamente isso. Uma repórter ouve, microfone vermelho na mão, o relato de moradores que não têm acesso regular à água potável. As caixas d’água plásticas aparecem fincadas no barro como solução improvisada. O balde empunhado diante da câmera não é encenação. É o sistema de abastecimento real de uma comunidade no sertão piauiense em 2026.

O Piauí chegou a 2025 com a pior seca em sete anos. O Monitor de Secas da Secretaria Estadual de Meio Ambiente registrou que 115 municípios, metade do estado, atingiram o estágio de seca extrema em outubro daquele ano, com perdas generalizadas na agricultura, açudes secos e comunidades inteiras sem acesso à água potável. Em fevereiro de 2026, ainda eram 49 cidades no estágio crítico. Uruçuí, Ribeiro Gonçalves, Riacho Frio e Pavussu estão entre os municípios com emergência reconhecida e poços sendo perfurados em caráter emergencial.

Em Simões, no sul do estado, moradores relataram quase quatro meses sem chuvas. “Aqui não tem açude, nem água encanada. O inverno foi fraco e não tem água nem na torneira”, disse MARIA JOSÉ DA SILVA, moradora de comunidade afetada, em julho de 2025. A barragem Salgadinha, principal reservatório do município, operava com apenas 15% da capacidade.

É nesse contexto que o governador RAFAEL FONTELES (PT) leiloou, em outubro de 2024, os serviços de saneamento de 224 municípios piauienses para a holding AEGEA, criadora da concessionária Águas do Piauí. O contrato tem duração de 35 ANOS, válido até 2059. A AEGEA pagou R$ 1 BILHÃO pela concessão. O diretor-presidente da Águas do Piauí, GUILHERME DIAS, e o diretor executivo, RODRIGO LACERDA, assumiram a gestão de toda a água do estado com a promessa de levar abastecimento a 99% das residências até 2033 e esgoto a 90% até 2040.

A promessa ainda é promessa. Em dezembro de 2025, durante o Natal, moradores de Parnaíba e Luís Correia ficaram quase 24 horas sem água. A própria Águas do Piauí atribuiu a falha a instabilidades no fornecimento de energia elétrica. A solução apresentada pela empresa foi uma operação emergencial com 12 geradores. Num estado com 100% do território em seca declarada, a concessionária que assumiu a água de 224 cidades opera com gerador de emergência quando a luz oscila.

O TCE-PI, o Tribunal de Contas do Estado, já apontou fragilidades na gestão de contratos de PPP de infraestrutura no Piauí e determinou ações corretivas a órgãos do governo estadual. O padrão se repete: obras com dinheiro público, concessão para o setor privado, e a população pagando a conta sem ver o serviço.

O vídeo que deu origem a esta reportagem não tem autor identificado nem data precisa. Mas o que ele mostra tem endereço, tem contexto e tem responsável. Uma comunidade no sul do Piauí. Uma seca que o governo do estado classifica como emergência. E um balde que diz, sem precisar de legenda, tudo o que o poder público não quis resolver.

REPORTER MARLON BORGES
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REPORTER MARLON BORGES

Jornalismo investigativo. Denuncias, politica, policia e operacoes no Piaui, Nordeste e Brasil.

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