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QUATRO CANCELAS PARA SUFOCAR UMA SAFRA E A TRAVESSIA VIROU PRIVILÉGIO NO SUL DO PIAUÍ

REPORTER MARLON BORGES
por REPORTER MARLON BORGES 28 de maio de 2026 · 4 min de leitura
QUATRO CANCELAS PARA SUFOCAR UMA SAFRA E A TRAVESSIA VIROU PRIVILÉGIO NO SUL DO PIAUÍ

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No sul do Piauí, a velocidade com que o Estado ergue praças de pedágio expõe uma assimetria cruel: enquanto a escola atrasa, a guarita corre.

Há um tipo de violência que não deixa marca no corpo. Ela se instala devagar, na forma de uma cancela.

Em Uruçuí, no coração do Cerrado piauiense, os caminhões ainda passam. Mas quem dirige já calcula. E o cálculo, segundo moradores e caminhoneiros que gravaram seus desabafos na beira da PI-247, chega a um número que sintetiza o desconforto: CERCA DE QUARENTA E SEIS REAIS PARA UM CARRO DE PASSEIO ATRAVESSAR, DE PONTA A PONTA, APENAS O TRECHO DE SANTA ROSA. Um único trecho. Uma única travessia.

A denúncia que circula nas redes não é técnica. É visceral. Em vídeos compartilhados pela região, moradores apontam para o contraste que mais dói: “OBRA DE ESCOLA NÃO ANDA, OBRA DE SAÚDE NÃO ANDA”, repetem, “mas obra para taxar o povo é a todo vapor”. A frase não é dado. É sintoma. E diz mais sobre a relação entre o cidadão e o poder do que qualquer relatório de concessão.

Os relatos locais falam em quatro pontos de cobrança distribuídos num raio aproximado de duzentos quilômetros, sobre os eixos que sustentam a chamada Rota da Soja. Entre Uruçuí e Baixa Grande do Ribeiro. Na rota da Fazenda Progresso. Na travessia rumo a Benedito Leite, já na divisa com o Maranhão. E o mais sensível de todos: o de Santa Rosa, cravado entre o perímetro urbano e a unidade da Bunge. É importante registrar que esses pontos e valores partem de relatos de moradores e ainda aguardam confirmação oficial sobre traçado, tarifas e cronograma.

Mas é justamente no trecho de Santa Rosa que a engenharia revela sua face mais perversa.

Porque ali não se atravessa apenas asfalto. Atravessa-se uma economia inteira. Empresários do setor de serviços de Uruçuí explicam a lógica que pode ruir: o caminhão chega à fábrica, registra a placa, e no tempo morto da espera o motorista voltava à cidade para trocar pneu, calibrar, fazer a manutenção, comer. Esse vaivém alimentava borracheiros, mecânicos, lanchonetes. UMA CANCELA NO MEIO DESSE CAMINHO NÃO COBRA UMA TARIFA. ELA DESLIGA UM CICLO. O motorista deixa de voltar para não pagar duas vezes, e o comércio local seca por inanição.

Há aqui uma crueldade que a filosofia conhece bem. O que sufoca não é o preço. É a fricção. Toda vez que o trajeto cotidiano vira decisão financeira, algo se perde além do dinheiro: perde-se a liberdade de movimento que define a vida econômica de uma região. O caminhoneiro que disse, exausto, “A GENTE SE SENTE REBAIXADO” não estava falando de boleto. Estava falando de dignidade. De pertencimento. Da sensação de que o território onde trabalha foi redesenhado contra ele, sem que ninguém pedisse licença.

Compare-se com qualquer corredor logístico consolidado do país e o padrão se repete: a tarifa raramente nasce como vilã isolada. Ela se torna insuportável quando se acumula sobre quem já carrega diesel caro, margem apertada e semanas longe de casa. O sul do Piauí não inventou a revolta contra o pedágio. Apenas a comprimiu num raio curto demais para qualquer cálculo fazer sentido.

E há a assimetria política que ninguém esconde nos bastidores. Vereadores e lideranças locais tentam articular resistência, isenções, diálogo. Mas a caneta da concessão não está na câmara municipal. Está no governo estadual. E essa distância entre quem sente o pedágio e quem o assina é, talvez, o dado mais revelador de todos: A POPULAÇÃO QUE PAGA NÃO É A MESMA QUE DECIDE.

Resta a paisagem. As guaritas subindo rápido sobre uma terra que produz soja para meio mundo e ainda discute se terá escola decente. Quatro cancelas, duzentos quilômetros, uma safra. E a pergunta que fica suspensa no ar quente do Cerrado, sem resposta oficial até agora: quando o custo de simplesmente existir num território vira tarifa, a quem pertence, afinal, essa estrada?

REPORTER MARLON BORGES
Reportagem por

REPORTER MARLON BORGES

Jornalismo investigativo. Denuncias, politica, policia e operacoes no Piaui, Nordeste e Brasil.

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