R$ 1,4 MILHÃO EM OFICINA DE FACHADA E R$ 6,9 MILHÕES NA CANAÃ COLOCAM JÚLIO CÉSAR E GEORGIANO NETO NO CENTRO DO DINHEIRO PÚBLICO DO PIAUÍ
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Denunciar agoraPai e filho disputam Senado e Câmara no mesmo dia em que o estado ainda não fechou a conta de uma construtora condenada a devolver quase R$ 7 milhões, nem explicou por que uma oficina aberta em nome do filho de um assessor recebeu R$ 1.423.450,19 de empresa com quase R$ 1 bilhão em contratos estaduais. O Piauí chegou à eleição de 4 de outubro de 2026 com dois nomes da mesma casa no centro da disputa e no centro do papel. JÚLIO CÉSAR, deputado federal do PSD e candidato ao Senado, e o filho GEORGIANO NETO, deputado estadual do PSD e candidato a deputado federal com o número 5555, atravessam a reta final sob dois dossiês que não se confundem, mas se encontram no mesmo sobrenome. Um é jornalístico e recente. O outro é judicial e antigo. Nenhum dos dois, até aqui, produziu condenação definitiva contra os dois na pessoa física. Os dois, juntos, descrevem o caminho do dinheiro público quando ele passa por empresa de família, secretaria aliada e nota fiscal de um único cliente. O fio mais novo foi publicado em 26 de agosto de 2026 pela coluna de Tácio Lorran, no Metrópoles, e repercutido no estado pelo OitoMeia e pela Gazeta Hora 1. Desde 2022, a CONSTRUTORA HIDROS firmou contratos que somam quase R$ 1 BILHÃO com o governo do Piauí, a maior parte na Secretaria dos Transportes. A Setrans é comandada há três anos por JONAS MOURA ARAÚJO, aliado político dos dois parlamentares e coordenador da campanha de Júlio César ao Senado. Enquanto a construtora acumulava obras, pagou R$ 1.423.450,19, entre 2025 e 2026, à WMC JR AUTO CENTER. A empresa foi aberta em novembro de 2024 em nome de WILSON MARQUES CAMPELO JÚNIOR, filho de um assessor de Júlio César. Declarou à Receita Federal funcionar num posto de combustíveis em Teresina. A reportagem não encontrou indício de oficina no endereço.
O volume das notas é o que torna o caso legível para quem não lê balanço. Foram 14 notas fiscais, todas para a Hidros, por manutenção e reparação de veículos, lanternagem, pintura, alinhamento, lavagem, reboque e óleo diesel. Três foram canceladas. Cinco, emitidas em agosto de 2025, somaram R$ 463 mil. Outras cinco, em novembro de 2025, chegaram a R$ 600 mil. Uma nota de maio de 2026 registrou R$ 360 mil. A mesma WMC aparece, em 9 de maio de 2026, como responsável por alinhamento, balanceamento e revisão de uma TOYOTA SW4, ano 2025, registrada em nome de Georgiano Neto, segundo dados da Senatran citados na apuração. Uma oficina com um cliente só, aberta há menos de um ano, faturando mais de R$ 1,4 milhão de uma construtora que vive de contrato estadual, não é um detalhe de oficina. É um desenho. O laço político aparece em registro público, não só em inferência. Em JERUMENHA, o prefeito Júnior Nato, do PT, atribuiu a Georgiano Neto o apoio a duas etapas de pavimentação asfáltica executadas com recursos estaduais, no total de R$ 2,6 milhões, ao lado do governador RAFAEL FONTELES. Em 15 de janeiro de 2026, o prefeito agradeceu publicamente as duas etapas. Sites locais tratam Georgiano como viabilizador de obras da Hidros na gestão Fonteles, o que a coluna do Metrópoles leu como sinal de influência sobre a Setrans. Influência não é propina. Influência com secretário que coordena a campanha do pai, construtora de quase R$ 1 bilhão e oficina no nome do filho de um assessor é o tipo de arranjo que a administração pública foi desenhada para não naturalizar. As respostas cabem num parágrafo porque foram curtas. Procurado, Júlio César disse por telefone que não tem conhecimento desses pagamentos. Georgiano Neto não respondeu. Wilson Marques Campelo Júnior declarou que não tinha nada a ver com isso e encerrou a ligação. A Construtora Hidros não se manifestou no prazo. Não há, na reportagem, condenação, inquérito policial concluído ou decisão do Tribunal de Contas sobre essas notas. Há indício documental de empresa com cara de fachada, pagamento concentrado e proximidade política. Presunção de inocência não apaga nota fiscal. Nota fiscal também não condena sozinha. O dossiê antigo tem sentença, e a sentença não diz o que o atalho político gostaria que dissesse. A CONSTRUTORA E IMOBILIÁRIA CANAÃ assinou em 2008 contrato com a Agência de Desenvolvimento Habitacional para o Residencial Jacinta Andrade. Anos depois, a empresa pediu reequilíbrio econômico-financeiro. A ADH, então dirigida por GILVANA NOBRE RODRIGUES GAYOSO FREITAS, autorizou o pagamento de R$ 6.963.650,61. O dinheiro caiu dois dias antes da eleição da Mesa Diretora da Assembleia. O Ministério Público do Piauí viu coincidência demais e ajuizou ação de improbidade, com base no artigo 10 da Lei 8.429/92, contra Gilvana, contra Georgiano Fernandes Lima Neto, sócio majoritário à época, e contra a própria Canaã. A acusação era de dano ao erário. A defesa sustentou regularidade do contrato e ausência de dolo.
Em fevereiro de 2025, a 2ª Vara dos Feitos da Fazenda Pública de Teresina, na sentença relatada pelo juiz LITELTON VIEIRA DE OLIVEIRA e repercutida em março pelo OitoMeia, condenou a Canaã a devolver os R$ 6,9 milhões e a pagar multa civil de igual valor, pouco mais de R$ 13 milhões no papel. Georgiano, na pessoa física, e Gilvana foram absolvidos. O juiz entendeu que não ficou demonstrado o dolo específico dos dois. A restituição, na leitura da sentença, não era devida porque decorria de norma municipal que deveria ter sido examinada antes. O Portal AZ registrou que, em agosto de 2025, o desembargador RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS recebeu o recurso com efeito suspensivo. A condenação da empresa ficou congelada até o julgamento do mérito pela 3ª Câmara de Direito Público. Georgiano afirmou que não é mais sócio. O quadro societário citado pelo OitoMeia em 26 de março de 2025 traz JÚLIO CÉSAR, JULIANA LIMA e JOSÉ VICTOR ALVES, filho da senadora JUSSARA LIMA, mãe de Georgiano. Antes da sentença, o mesmo conjunto já tinha virado denúncia. Em 25 de novembro de 2018, a Associação dos Mutuários do Jacinta Andrade, pela assinatura de Osvaldo de Jesus, levou o caso ao Ministério Público Federal. A peça dizia que a ADH comprou de Júlio César, em 2008, uma área de 172 hectares com 4.348 lotes, por R$ 14,4 milhões, para erguer o residencial. Em 2010, o número de lotes teria caído para 4 mil e o valor atualizado para R$ 16,8 milhões. A associação acusou o parlamentar de se apropriar de 348 lotes por meio da Canaã e pediu investigação da origem das terras, compradas com recurso federal, e da prestação de contas de R$ 157 milhões alocados à obra. A assessoria do deputado, à época, rebateu e disse que a documentação de transferência estava pronta. Denúncia de associação não é sentença. Sentença que absolve a pessoa e condena a empresa também não encerra a pergunta sobre quem ficou com o dinheiro enquanto o recurso dorme.
O que o eleitor tem diante de si, portanto, não é um veredito. É uma arquitetura. De um lado, a Canaã, nascida no contrato habitacional de 2008, condenada em primeira instância, com o pai no quadro de sócios e o filho absolvido na pessoa física, recurso suspenso e risco de ficha limpa ainda dependente do que a segunda instância fizer com a empresa e com quem a controlava. De outro, a Hidros, quase R$ 1 bilhão em contratos desde 2022, secretário aliado na coordenação da campanha ao Senado, e R$ 1.423.450,19 pagos a uma oficina de novembro de 2024, com um cliente só, no nome do filho de um assessor, que também aparece na manutenção da caminhonete do filho. Em 26 de setembro, um ato na Zona Leste de Teresina reuniu cerca de 10 mil pessoas, com Rafael Fonteles, Wellington Dias e Marcelo Castro, e Georgiano falou em representantes que vivam no Piauí. A frase é política. O papel é outro. O papel ainda não foi respondido.
REPORTER MARLON BORGES
Jornalismo investigativo. Denuncias, politica, policia e operacoes no Piaui, Nordeste e Brasil.
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