EM FLORIANO, UPA MANDA FAMÍLIA CHAMAR UM UBER PARA HOMEM QUE SÓ MOVE O PESCOÇO
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Denunciar agoraAcamado após dois AVCs e uma cirurgia na cabeça, um idoso recebeu alta da UPA de Floriano e foi orientado a voltar para casa de aplicativo. A ambulância que faltou ao estado veio do outro lado do rio, no Maranhão. No interior do PIAUÍ, a saúde pública encontrou uma forma nova de admitir que não tem o que oferecer: terceirizar o corpo do paciente para o aplicativo. Quem cruzou a ponte para socorrer foi o vizinho de outro estado. Ele move o pescoço. Nada além disso. DOIS AVCs e uma cirurgia na cabeça deixaram o corpo preso à cama, com uma ferida aberta nas costas e dependente de mãos alheias para cada gesto. Foi a esse homem que a UPA de FLORIANO, no PIAUÍ, deu alta. E foi à família dele que alguém, de dentro da estrutura pública de saúde, ofereceu a saída: CHAMA UM UBER. O idoso é acamado e está sob cuidados paliativos. Soma à imobilidade um quadro de DIABETES e HIPERTENSÃO. Não senta, não se sustenta, não cabe no banco de um carro comum. Ainda assim, segundo o filho, JOSÉ DA GUIA, e a equipe que acompanhou o caso, a orientação da gerência foi essa: encaixar o pai num veículo de aplicativo e seguir.
O desabafo do filho condensa o tamanho do abandono. “Meu pai recebeu alta hoje e ele é acamado”, conta JOSÉ DA GUIA. “Quando eu fui falar com o assistente social para arrumar uma ambulância, ela falou que não podia porque não tem. Falaram: não, você pega um Uber para levar seu pai. Olha a situação que meu pai está.”
A alta foi o desfecho de um impasse. O idoso precisava ser transferido para o HOSPITAL REGIONAL TIBÉRIO NUNES, principal referência médica da região. A família ouviu que não havia vaga, não havia espaço, não havia para onde mandar. Sem leito no hospital e sem transporte na UPA, restou a porta da rua. O que transforma a desgraça em denúncia não é a falta. É o que estava parado. Segundo relatos colhidos no local, havia VEÍCULOS OFICIAIS estacionados na própria unidade enquanto a família era mandada atrás de um carro de aplicativo. A ambulância não faltava por não existir. FALTAVA POR DECISÃO.
Há uma crueldade precisa na escolha da palavra. O UBER é o símbolo do Brasil conectado, o aplicativo que promete um carro a poucos toques, em qualquer lugar e a qualquer hora. Oferecer esse mundo a um homem que não consegue nem sentar é medir, numa única cena, a distância entre o país que se anuncia moderno e o país que deixa o cidadão na calçada. A tecnologia chegou a FLORIANO. A ambulância pública, não.
A Constituição de 1988 escreveu que a saúde é direito de todos e dever do ESTADO. No papel, a frase é para todo mundo. No interior do PIAUÍ, ela encontra o seu limite. Entre a promessa do SUS e o leito que não aparece existe um território inteiro de gente que descobre, no pior momento da vida, que o dever do ESTADO tem endereço, e o endereço não é o dela.
Há ainda o detalhe dos cuidados paliativos, talvez a forma mais honesta de medir uma sociedade. Paliativo não cura. Apenas garante que o fim seja vivido com alguma dignidade. Quando o sistema empurra um paciente nessa condição para o banco de um carro, não está economizando recurso. Está dizendo, em ato, o quanto vale aquela vida. A solução não nasceu no PIAUÍ. Veio do outro lado do rio. Diante da recusa, a reportagem procurou a administração de BARÃO DE GRAJAÚ, cidade que fica em outro estado, no MARANHÃO, separada de FLORIANO apenas pela ponte sobre o rio PARNAÍBA. Foi de lá que partiu a ambulância que levou o idoso para casa em segurança.
A imagem é exata. O ESTADO que tinha o dever falhou. Um município de outra unidade da federação, que nada devia àquele homem, atravessou a ponte e fez o que precisava ser feito. A solidariedade entre os pobres voltou a cobrir o buraco deixado pelo poder público, como faz há séculos no sertão. O rio PARNAÍBA, que separa PIAUÍ e MARANHÃO, virou nesta história a fronteira entre a indiferença e o socorro.
Até o fechamento desta matéria, a direção da UPA de FLORIANO e a SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DO PIAUÍ não haviam se pronunciado sobre a falta de ambulâncias nem sobre a conduta dos funcionários. O silêncio, aqui, não é falta de resposta. É a resposta. Fica a cena para quem quiser olhar. Um homem que só move o pescoço. Uma ferida aberta. Uma família humilhada na recepção. E uma ponte. De um lado, o aparato oficial de um estado que disse não ter. Do outro, um vizinho que disse sim. No meio, a pergunta que nenhuma nota de esclarecimento vai responder: que país é esse em que voltar para casa com alguma dignidade depende da boa vontade da cidade do outro lado do rio.
Um ponto que entrei além do seu rascunho e que vale conferir antes de publicar: BARÃO DE GRAJAÚ fica no MARANHÃO, na margem esquerda do Parnaíba, ligada a Floriano pela ponte sobre o rio. Confirmei a geografia. Isso muda o peso da história, porque a ambulância veio de outro estado, não só de um município vizinho. Se quiser, ajusto o tom, encurto, ou puxo mais a camada política sobre a Secretaria.
REPORTER MARLON BORGES
Jornalismo investigativo. Denuncias, politica, policia e operacoes no Piaui, Nordeste e Brasil.
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